Foi Assim, por Neide Lomba

Eu estava sentada defronte ao médico que, calmamente, me disse: a senhora está com câncer. A notícia foi assimilada pelo meu cérebro de uma forma inédita, foi como se ele dissesse: a D. Catarina (que eu não conheço) está com câncer. Respondi: ah é? E o que é preciso fazer?

Somente quando saí do consultório, desci as escadas é que olhei para a minha amiga e companheira na luta que se seguiria, nos abraçamos e choramos juntas. Demorou um pouco para eu me dar conta de que EU estava com câncer.

Pensei: Meu Deus, outra vez? Perdi meu único filho em uma grande batalha de quatro anos contra um Linfoma Não Hodking, na coluna, tinha feito análise durante seis anos para aceitar o fato, ou, pelo menos, sofrer menos com ele e agora o câncer entrava novamente na minha vida?

A primeira pergunta que a gente faz: Por que eu? Ou no caso do meu filho, por que ele? Quem vai entender os desígnios de Deus….

Aí começou a correria – uma coisa que pouca gente sabe ou se dá conta – o câncer tem pressa, muita pressa, quando aparece cresce a cada dia que passa, então corri para fazer todos os exames pré-cirúrgicos, que levaram uns 20 dias e fui para a mesa de operação. Nestes poucos 20 dias o apressado já havia crescido 0,4 cm . Fiz um quadrante, retirada parcial do seio, mais 16 linfonodos, apesar de não infectados, apenas por precaução, também foram tirados.
O câncer era um carcinoma ductal infiltrante, que é agressivo, isto é, tem mais pressa do que o não agressivo ou de agressividade menor.

Passada esta fase, chegou a hora da tão falada quimioterapia. Entrei na Internet e fui lá saber tudo o que poderia acontecer comigo, já que sabia que a quimio tem muitos efeitos colaterais. Dentre estes constava: diarréia. Como durante toda a minha vida tive o intestino solto, não tive dúvidas, fui a uma farmácia e comprei um monte de fraldas descartáveis e entupi meu armário. Passei a quimio toda com prisão de ventre…. tendo que usar supositórios….

Lá fui eu prá quimioterapia. A não ser o fato de ter ficado sem veias logo na primeira aplicação, as sessões de quimio eram ótimas, sempre havia umas seis ou oito pessoas na sala, conversávamos muito, fazíamos piadas sobre a doença, conversávamos com o líquido vermelho que estava entrando em nosso corpo, porque sabíamos que dependíamos dele para a cura. Fiz as seis aplicações nas veias das mãos e dos dedos, doía sim e muito, às vezes, mas era uma dor que iria me curar, então sempre bem-vinda.

Terminada a quimio, rápido prá radioterapia, 30 sessões, todas elas muito tranqüilas, local para um bom bate-papo com as companheiras que iam no mesmo horário. Durante o tratamento, o mundo que nos rodeia desaparece, a gente só fala sobre a doença, se dói ou não, se a radio está queimando, prá não se esquecer de hidratar muito a região, enfim nós acabamos nos tornando mais especialistas do que os próprios médicos.

Quando fazia 15 dias que eu havia começado a quimio, na véspera do meu aniversário, senti um tufo de cabelos em minhas mãos. Já havia combinado com a cabeleireira que, quando isto acontecesse, iria imediatamente passar máquina zero na cabeça, já havia visto o sofrimento do meu filho, quando saía do chuveiro com as mãos cheias de cabelo.

No dia seguinte, fiz uma enorme festa de aniversário , um arranjo com lindos lenços coloridos na cabeça – eu havia comprado uma peruca, mas quando olhei no espelho perguntei: hei, quem é você? – e lá fui festejar a minha vida, que eu ainda queria viver. No meio da festa, pensei: se eu não assumir minha careca já, não vou conseguir mais, então fui ao banheiro, tirei o arranjo e voltei prá festa com a carequinha brilhando que só ela. Nunca mais tive problemas com isto.

Hoje dois anos depois, estou com os cabelos na altura dos ombros, nunca tinha deixado crescer, sempre usei bem Joãozinho, mas agora amo cada fio do meu cabelo, quando cai algum, brigo com ele e digo: você me pertence, não tem nada que sair do seu lugar….

Acabei de fazer todos os exames de rotina – faço a cada três meses – e com a graça de Deus e uma ajudazinha do meu alto astral, estou curada, se bem que o câncer é uma doença crônica, não se pode tirar os olhos de cima dela, devemos estar sempre atentos porque, quando acudida a tempo, não é mais uma sentença de morte e sim de vida.

Agradeço a Deus por ter me dado este câncer, hoje sou outra pessoa, valorizo demais as mínimas coisas da minha vida e não mais me preocupo com coisas banais que antes me aborreciam.

Neide Lomba
02/03/2009
Algumas frases da Neide que eu gosto muito:
– Quando você começa a sua batalha contra o câncer, você pensa: mesmo que eu vença, nuca mais serei a mesma pessoa, mas quando termina, a conclusão é que Nunca mais não existe!!!

– A guerra durou dois anos e meio e finalmente, venci a batalha. Ou melhor, eu não, a pessoa que me tornei, é que foi a vencedora.

– Receber a notícia: você está com câncer é de atordoar qualquer pessoa, mas o que descobri desde o primeiro dia em que fui ao masto, é que câncer tem pressa, muita pressa… uma pressa olímpica!

– Cada vez mais estão aumentando os casos de câncer no mundo, mas tê-lo não é uma sentença de morte não, é sim uma lição de coragem, um desafio para enfrentar o inimigo e uma retomada de todos os conceitos de vida, que tínhamos antes dele.

Essa foi minha história de sucesso contra o câncer.
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2 pensamentos em “Foi Assim, por Neide Lomba”

  1. Oi Neide, tudo bem? Li sua história e fiquei bastante feliz pela sua conquista – a cura. Graças a Deus.

    Estou passando por uma situação atualmente com meu pai que tem 78 anos. Em outubro de 2011 ele começou o tratamento contra o câncer de próstata, inicialmente com todos os exames e posteriormente com a aplicação de hormônio na região abdominal, a chamada Hormonioterapia (ainda tomando essa medicação de 30 em 30 dias).

    Posteriormente, começou as sessões de radio (32 sessões já finalizadas). Nas 10 primeiras foi tudo bem, ele tinha disposição, íamos às sessões normalmente. Porém, a partir daí ele começou a perder o apetite, ficar fraco, indisposto, deitado o dia todo prostrado, ou seja, tudo o que eu li a respeito e que os médicos e enfermeiros disseram que poderia ocorrer como efeitos da radio, assim foi com meu pai.

    Hoje, faz 11 dias que ele terminou as sessões, teve que tomar um antibiótico na veia devido a uma infecção (já finalizado), mas ainda está com aquela indisposição, prostrado, porém, já comendo melhor e a meu ver, recuperando um pouquinho a cada dia.

    O que mais incomoda no momento é o intestino solto, e como disseram os médicos, é um dos principais efeitos quando se toma radiação na região abdominal. Li que pode durar algumas semanas após finalizadas as sessões de radio, inclusive o desânimo, mas que depois volta ao normal.

    Portanto, Neide, não vou te incomodar mais com meu email tão longo, mas gostaria de saber se você tem alguma dica com relação ao intestino solto (alimentos por exemplo) e o que pode me dizer a respeito desse desânimo do meu pai, se demora a reagir, a fortalecer novamente.
    No mais, parabéns novamente pela sua força, pela fé e pela recuperação. Fique com Deus.

  2. Oi Neide, recebi hoje o meu diagnóstico de câncer de mama, e estou aqui, procurando tudo na internet, quando me deparei com sua história. Linda história, que me enche de esperança. Obrigada por compartilhar conosco esse relato otimista. É muito bom num momento como esse que estou passando, deparar com histórias de tiveram um final feliz… Bjs de luz no seu coração.

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